“Há uma resposta para todas as perguntas do Mundo nas canções dos Delfins” por Rui Miguel Abreu

Alguns dos meus melhores fins-de-tarde de sempre foram passados à mesa, em bem regadas conversas com amigos acompanhadas por bandas sonoras especiais que começavam sempre com as minhas escolhas – defeito de fabrico… -, mas que acabavam por apontar a terreno comum, respeitando as vontades de quem estivesse presente. Dirá alguma coisa – muita coisa até… – da minha geração o facto de, mesmo quando as caras em torno da mesa mudavam de uma ocasião para a seguinte, eventual e invariavelmente, essas bandas sonoras construídas de forma cooperativa com o telefone a passar de mão em mão lá acabassem por incluir pelo menos um tema dos Delfins. E escrevo “pelo menos um” porque em mais do que uma ocasião a escolha de um qualquer clássico da banda de Cascais acabava inevitavelmente por levar a alguma discussão – “pá, tinhas que pôr isto a seguir a Prince…?” – e a argumentação de quem quer que pudesse nesse momento estar a defender a sua escolha passava por vezes por um reforço de argumento – “então e se tivesse metido esta?”…

Lembro-me bem que num desses fins de tarde, depois de alguém ter metido a tocar a “1 Lugar ao Sol”, a habitual discussão lá surgiu porque houve quem não achasse lógico que se tivesse passado do “Camino del Sol” de Antena para o clássico retirado do segundo álbum dos Delfins, mas para lá da concordância em relação ao astro – afinal de contas alguém podia ter escolhido outra canção qualquer que versasse sobre a Lua, Vénus ou algum outro corpo celeste -, a verdade é que ambas as peças são colheita da mesma década de 80 em que toda a gente sentada à mesa naquele dia, como dizem os ingleses e inglesas, “came of age”. Haverá até mais qualquer coisa a ligar as duas canções: talvez a aura baleárica que condiz com o sol que figura no título e um evidente fascínio pelo mar e pela praia que ambas as bandas traduziam em pop escorreita, leve e sinceramente bem menos pretensiosa do que a de muitos dos seus contemporâneos.

 Dessa vez, no entanto, algo mais aconteceu: uma pessoa muito próxima, cujas ideias muito respeito e que tem muitos mais pontos de sintonia musical comigo do que de dissonância atirou para cima da mesa uma ideia extraordinária, mesmo não tendo sido ela nesse dia a responsável pela selecção no Spotify daquele tema solarengo dos Delfins – “Há uma resposta para todas as perguntas do Mundo nas canções dos Delfins!”, exclamou ela, sem a menor sombra de ironia, sem que no seu rosto se vislumbrasse a mais leve centelha de sarcasmo. A seriedade com que a frase foi proferida silenciou todas as conversas paralelas que estavam a decorrer em simultâneo. “Sei bem do que falo”, reforçou ela. “E posso prová-lo”. A Maria interpretou o silêncio estupefacto dos convivas desse dia como um convite à apresentação da sua… bem, poderia agora escrever “teoria”, mas será muito mais justo escolher antes a palavra “convicção” porque a Maria acreditava mesmo no que estava a dizer. “E até posso começar pela maior de todas as perguntas”, disse ela ainda, em tom de nítido desafio: “Haverá vida depois da morte? São os Delfins, relembro, que garantem que ‘U Outro Lado Existe’…”

O coro de “assim não vale” que se levantou não demoveu a Maria, que logo avançou para um segundo round quando alguém lhe apontou o facto do Miguel Angelo estar a cantar sobre “u outro lado de ti…” no tema que inspirava o título do segundo álbum dos Delfins, “U Outro Lado Existe”, lançado em 1988: “Muito bem, vamos lá então: concordarão que todos gostaríamos de ter a resposta a uma pergunta tão comum quanto esta: ‘Como posso realizar os meus sonhos?’. O novo exemplo avançado pela Maria obteve imediata reacção dos presentes que em uníssono dispararam o que colectivamente soou a uma palavra inventada resultante da junção de “claro” e “óbvio”.

 “Pois bem”, disse a Maria, “querem então saber como realizar os vossos maiores sonhos? Segundo os Delfins é claro e óbvio: “Se souberes acreditar que sonhar é só viver e viver imaginar vais conquistar um lugar, um lugar ao sol sempre teu”. “Assunto arrumado”, terá ela pensado, perante um suspiro colectivo que expressou alguma desilusão após ela ter declamado aquelas palavras… “Estavam à espera de uma fórmula secreta?”, questionou ela. “Dou-vos outro exemplo: todos querem conhecer o caminho para a felicidade, certo?” Nova resposta: “claróbvio!” O “é simples” que saiu da boca da Fátima foi dito com tanta certeza que, por um momento, todos ali ficaram convencidos que ela tinha, de facto, atingido uma qualquer clarividência que até então nos tinha escapado a todos. “Basta saberem que para lá chegarem não têm idade e que para irem tentando não vos falta o tempo”. A Maria estava a parafrasear “O Caminho da Felicidade” do primeiro álbum dos Delfins, o “Libertação” que saiu em 1987, mas, na verdade, estava a dizer-nos que a felicidade se alcança se não colocarmos um prazo nesse objectivo e que, afinal, é tentando que se é feliz. Infelicidade é nem sequer tentar, nem sequer fazer o esforço para mudar o que quer que seja. Estranho… poderia ela ter razão? O silêncio generalizado tornou muito evidente que ela nos tinha plantado a todos no pensamento uma espécie de dúvida ou talvez até de esperança, como se de repente tivéssemos passado a partilhar um precioso segredo.

 Mas nesse dia a conversa acabou por divergir, alguém meteu um outro tema qualquer a tocar e a conversa lá seguiu noutra direcção, ao sabor da música, da brisa quente do fim de tarde e dos taninos. Mas a tal frase da Maria – “há uma resposta para todas as perguntas do mundo nas canções dos Delfins!” – ficou-me cravada na memória, uma daquelas ideias a que eu soube desde logo que teria que voltar algum dia. Quanto mais não fosse para provar que não havia substância em tal enunciação. Porque toda a gente sabe que se alguém escreveu em canção respostas para todas as grandes questões da vida foi Bob Dylan, não o Miguel Angelo, certo? Mas… e se a Maria tivesse razão…?

 Nada como pôr, finalmente, à prova a incrível afirmação da Maria. Perguntas universais, pelo menos quando se tem 20 anos:

1: Quem sou e para onde vou?

Os Delfins respondem na “Marcha dos Desalinhados”: “Ninguém sabe / Para onde eu vou / Ninguém manda / Em quem eu sou / Sem cor nem Deus nem fado”.

2: O que é o amor?

Os Delfins falam disso na “Sou Como um Rio”: “Sou como um rio / Que vive só para ti / Correndo só para te ver / Sou como um rio / Que acaba ao pé de ti / Foi sempre assim – gostar de ti”.

3: E esse amor, dura para sempre ou pode morrer, como os rios que, como se sabe, podem secar ou ver os cursos alterados?

Há pistas na “Saber Amar”, numa invulgar formulação que quase parece um haiku japonês : “O amor escapa-te entre os dedos / E o tempo escorre pelas mãos / O sol já se vai pôr no mar”.

4: Ainda a vida depois da morte, já que “U Outro lado” até pode referir-se a outra coisa que não o passar para o lado de lá…

Quando, na “Ao Passar Um Navio”, tema que também se encontra no álbum “O Caminho da Felicidade”, se canta que “Ao passar uma vida / Fica o sonho sempre igual” parece que o que se diz é que quando o corpo se desprende deste plano o espírito permanece. Pode ser que sim.

A ideia de que a pop só fala sobre coisas leves e corriqueiras é, em boa parte das vezes, mais do que justa, mas também não há nenhuma regra escrita que impeça quem escreve canções pop de tentar abordar grandes questões. N’ “A Queda de um Anjo” parece ser a ideia da fuga ao pré-determinado, de ser capaz de descartar as tradições e traçar um caminho individual o que está em causa: “Testemunhos da verdade / Tanto vão de mão em mão / Que se perdem com a idade / Porque ninguém nasce ensinado / O que aprendi já está errado / Não acredito no meu passado”.

Cena pesada para uma canção pop, certamente, e que ainda por cima merece insistência na “Nasce Selvagem”, do terceiro disco dos Delfins, “Desalinhados”, de 1990, um tema que se não cantaram com os Delfins, certamente terão entoado com a Resistência. Garante-se aí que “Mais do que a um passado / Que a uma história ou tradição / Tu pertences a ti” numa clara defesa da ideia universal de Liberdade e auto-determinação.

E por falar em liberdade, mencionava há pouco a tal geração que tomou consciência das grandes questões nos anos 80 e quem, como é o meu caso, nasceu antes ainda do 25 de Abril terá, de alguma forma, lidado com a guerra em África e com as complexas questões que esse legado nos impôs. O meu pai, por exemplo, nunca falou sobre o que viu e viveu na Guiné e esse silêncio era, na verdade, partilhado por toda uma geração forçada a combater. Sobre essa ferida tão funda que a história nos cravou no corpo faltam ainda mais livros e filmes, mais reportagens e histórias. E mais canções. Mas os Delfins, que nunca ninguém viu como fazedores de música de intervenção, foram dos primeiros da idade pop a abordar esse doloroso assunto.

Se alguém perguntasse se teria valido a pena – e hoje a pergunta é mais pertinente do que nunca nesta era de crispações e de extremismos, quando outra guerra acontece todos os dias nas nossas televisões e numa terra real, ainda que distante – os Delfins teriam a resposta naquela que é, talvez, a minha canção favorita de todas as que eles escreveram, talvez porque sempre a queira ter tocado para o meu pai. “Aquele Inverno” até pode destoar num disco com o título “O Caminho da Felicidade”, mas tem dentro palavras com real peso e validade: “Combater na selva sem saber porquê / E sentir o inferno de matar alguém / E quem regressou / Guarda a sensação / Que lutou numa guerra sem razão”. Outra cena pesada para canção pop, certo?

E de repente percebe-se que, afinal, os Delfins questionaram muita coisa. Talvez, ainda assim, a Maria tenha exagerado um bocadinho e nem todas as perguntas tenham uma resposta à altura nas suas canções. Mas, noutra prova de clara diferença, os Delfins, talvez quando lhes faltassem as palavras, souberam pedir emprestadas outras canções, socorrer-se das palavras de outros para poderem dessa forma cantar o que importava ser cantado. O amor, uma vez mais: a que é a mais universal de todas as grandes questões teve em António Variações um dos seus maiores poetas pop. E esses rapazes de Cascais perceberam-no antes de quase toda a gente, quando lhe deram voz logo no disco de estreia, muitos anos antes da grande consagração póstuma de que o génio da “Canção de Engate” foi alvo: “Vem que o amor / Não é o tempo / Nem é o tempo / Que o faz / Vem que o amor / É o momento/ Em que eu me dou / Em que te dás”. Tão simples, não é? Até parece uma canção dos Delfins…

Rui Miguel Abreu, Ericeira, Junho de 2023